Axé Talks #03 — Raízes do Culto

Orí, neurodivergência, TDAH, TEA e TOD explicados por dois olhares complementares: a espiritualidade e a neurociência.

Ciência e espiritualidade precisam mesmo caminhar em lados opostos? Foi essa a pergunta que abriu mais um episódio do Axé Talks, programa apresentado pelo Mestre Marcelo Alban, que recebeu para uma conversa profunda e acolhedora a neuropsicopedagoga Ilca Rossi, fundadora da clínica multidisciplinar Aquarela, em Franco da Rocha (SP).

O tema da noite: o conceito de Orí dentro da tradição yorubá e sua relação com o que a neurociência chama de neurodivergência. Um encontro entre dois olhares — o espiritual e o científico — sobre um mesmo objeto: a cabeça, a mente, o desenvolvimento humano.

O que é Orí na tradição yorubá? Duas linguagens para um mesmo mistério

Dentro da espiritualidade de matriz africana, todo ser humano nasce com uma capacidade chamada Orí — literalmente, “cabeça”. A tradição fala em dois tipos: o Orí Rere, a boa cabeça, e o Orí Buruku, associado a dificuldades. Mestre Alban faz questão de evitar esse segundo termo no dia a dia: ninguém escolhe ter uma “cabeça ruim”, e toda criança busca uma cabeça boa, feliz, resolvida.

Já a ciência usa outra palavra para descrever esse mesmo território: neurodiverso. Segundo Ilca Rossi, quando uma criança nasce dentro do espectro autista, por exemplo, ocorre uma poda neural que faz com que se formem conexões cerebrais diferentes das consideradas típicas — o que pode originar condições como autismo, TDAH e outras.

Um ponto de convergência entre as duas visões: o cérebro é capaz de aprender ao longo de toda a vida graças à plasticidade neural e às sinapses — as conexões que se formam a cada nova aprendizagem. Na cosmovisão yorubá, essa ideia aparece de forma parecida: para o povo yorubá, o Orí é o último a morrer, é o mais importante de tudo — tanto que não existe transplante de cérebro.

O papel da mãe e do ambiente no desenvolvimento infantil

Uma pergunta recorrente entre famílias: a influência da mãe durante a gestação interfere no desenvolvimento da criança? Do lado espiritual, acredita-se que a Iyá Mi — a grande mãe — tem influência direta nesse processo, e que o estresse materno pode desestruturar a criança em formação.

Do lado científico, Ilca Rossi lembra que teorias como a da “mãe geladeira” (associada a uma suposta frieza emocional durante a gestação) nunca foram comprovadas. O que de fato tem respaldo científico é o papel dos neurônios-espelho: reproduzimos, seja quando crianças ou adultos, muito daquilo que vemos no outro — daí a ideia de que somos, em parte, a média das pessoas com quem convivemos.

Espiritualidade e neurociência: soma, não disputa

Um dos pontos centrais da conversa foi o convite a abandonar a lógica do “ou isso, ou aquilo”. Para os dois convidados, ciência e espiritualidade não competem — se complementam. Quanto antes uma pessoa inicia sua terapia e sua prática religiosa, maior a chance de desenvolver melhor suas habilidades e sua espiritualidade.

Esse princípio orienta o trabalho da Aquarela: quando uma criança chega à clínica vinda de uma casa de fé, ou quando alguém dentro do terreiro apresenta sinais que preocupam a família, o discernimento entre o que é comportamento espiritual e o que é uma condição clínica — como TEA, TDAH ou outra — exige escuta cuidadosa, sem rotular precipitadamente. Ilca Rossi reforça: nem todo comportamento fora do padrão é um transtorno, mas tudo precisa ser bem avaliado, ouvindo a família e suas queixas.

TDAH, TEA e TOD: entenda as diferenças

Para desfazer confusões comuns, Ilca Rossi explicou os três subtipos de TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade):

Já o TEA (Transtorno do Espectro Autista) não é uma questão de “modinha” ou comportamento moldado por preferências pessoais — é uma diferença real na forma de perceber, sentir e processar o mundo, muitas vezes acompanhada de comorbidades, como sensibilidades sensoriais ou alimentares.

O TOD (Transtorno Opositor Desafiador), por sua vez, é frequentemente confundido com desobediência. Na verdade, trata-se de uma condição que leva a criança ou adolescente a confrontar constantemente figuras de autoridade — e que exige conversa, orientação e, muitas vezes, acompanhamento terapêutico e medicamentoso, não punição.

Em todos os casos, o recado é o mesmo: regras e limites continuam sendo necessários, independentemente da condição da criança — mas a forma de comunicar essas regras precisa ser clara, objetiva e explicada, nunca imposta sem sentido.

Traço de personalidade ou neurodivergência? Como diferenciar

Como diferenciar uma simples preferência pessoal de uma condição clínica? Ilca Rossi usa um exemplo simples: gostar de organização é um traço de personalidade; já uma pessoa com transtorno de processamento sensorial pode sentir dor física real ao usar certos tecidos, como poliéster — não se trata de gosto, mas de uma resposta sensorial que incomoda de verdade.

A distinção entre traço e transtorno é feita clinicamente, com base em anamnese detalhada com a família e critérios diagnósticos reconhecidos, como os do DSM-5.

Adultos neurodivergentes também precisam de regras e limites

A conversa também abordou como lidar com adultos neurodivergentes em situações de conflito. A resposta é semelhante à usada com crianças: informação clara, objetiva, sem rodeios, e exemplos concretos do cotidiano — já que pessoas neurodivergentes costumam ser muito visuais em sua forma de compreender o mundo. O importante é que a pessoa entenda o “porquê” das regras sociais, e não apenas receba uma negativa sem explicação.

Ansiedade e depressão sob o olhar da espiritualidade e da ciência

Um dos momentos mais firmes da conversa foi sobre ansiedade e depressão. Ambas foram descritas como condições reais, que bloqueiam a autoestima e o bem-estar — não “mimimi” ou frescura. Casos de figuras públicas que enfrentaram essas condições, mesmo aparentando estar sempre bem, foram citados como exemplo de que a aparência externa nem sempre reflete o que a pessoa vive internamente.

Dentro da espiritualidade, o conceito de Ipori — os pensamentos mais profundos, a conexão com algo além — foi trazido para explicar como um Orí muito voltado ao passado, ou muito acelerado e disperso, pode se manifestar como depressão ou ansiedade, respectivamente. Mas o alerta é claro: cuidar do Orí não substitui investigar a origem real do problema, nem dispensa acompanhamento profissional.

O que significa a palavra “macumba”? Desfazendo o preconceito

A conversa também passou por um esclarecimento importante: a palavra macumba tem origem em um instrumento de percussão de tradição banto, unificado posteriormente a elementos indígenas. O preconceito em torno do termo, segundo os convidados, nasce da falta de informação — e não da prática em si. O convite feito foi para que o público compreenda a diversidade religiosa com respeito, sem associar automaticamente tradições de matriz africana a ideias equivocadas de “bem” e “mal”.

Como os terreiros podem acolher melhor a neurodivergência

Um dos pontos mais diretos da entrevista foi a autocrítica em relação à preparação de muitos espaços religiosos para lidar com o público neurodivergente. Segundo Mestre Alban, grande parte dos terreiros ainda carece de formação para acolher adequadamente essas pessoas — o que reforça a importância de encaminhar quem precisa para acompanhamento terapêutico especializado, sem que a espiritualidade tente substituir esse cuidado.

A importância do acolhimento familiar

Fechando os temas centrais, a conversa destacou o papel da rede de apoio — que vai além dos laços de sangue — no desenvolvimento saudável de crianças, adolescentes e adultos. Ouvir sem julgar, evitar críticas e comparações, e criar um ambiente de confiança são fatores decisivos para que qualquer pessoa, neurodivergente ou não, se sinta segura para se expressar e buscar ajuda quando necessário.

Perguntas frequentes sobre Orí e neurodivergência

O que é Orí na tradição yorubá? Orí é a “cabeça” espiritual de cada pessoa dentro da tradição yorubá, considerada a divindade pessoal responsável pelo destino de cada um. A tradição fala em Orí Rere (a boa cabeça) e Orí Buruku (associado a dificuldades).

Qual a diferença entre TDAH, TEA e TOD? O TDAH é o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, com subtipos hiperativo-impulsivo, desatento e combinado. O TEA é o Transtorno do Espectro Autista, uma diferença real na forma de perceber e processar o mundo. Já o TOD é o Transtorno Opositor Desafiador, frequentemente confundido com desobediência.

Espiritualidade substitui terapia e acompanhamento médico? Não. Segundo os convidados do programa, espiritualidade e ciência se complementam, mas não se substituem. O ideal é buscar as duas frentes com profissionais qualificados.

Os terreiros estão preparados para receber pessoas neurodivergentes? Segundo o Mestre Marcelo Alban, muitos terreiros ainda não têm formação adequada para isso, o que reforça a importância de encaminhar a pessoa para acompanhamento terapêutico especializado junto com o cuidado espiritual.

Considerações finais

Ao encerrar o programa, Ilca Rossi resumiu o espírito da conversa em poucas palavras: acolhimento, soma, respeito e ética. O convite deixado para o público foi buscar ajuda sempre que perceber algo diferente em si ou em alguém próximo, pesquisando com cuidado o histórico e a qualificação de quem oferece esse suporte — seja na área clínica, seja na espiritual — já que ambas as áreas, infelizmente, também sofrem com a comercialização de serviços mal executados.

A mensagem final do programa reforça o propósito do Axé Talks: ciência e espiritualidade não precisam competir. Cada uma tem sua linguagem, seus métodos e seus limites — mas as duas, juntas, podem contribuir para que o ser humano viva com mais consciência, equilíbrio e qualidade de vida.


Este conteúdo é baseado no episódio #03 do Axé Talks, exibido ao vivo no canal Raízes do Culto. Assista à íntegra no YouTube.

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