Existe uma pergunta que precisa ser feita com seriedade dentro das religiões de matriz africana e das diferentes tradições espirituais:

Por que tantas pessoas estão abandonando terreiros, casas de axé e suas próprias obrigações espirituais?
É muito fácil colocar toda a responsabilidade no sacerdote. Também é fácil dizer que determinada casa não prestava, que o pai ou a mãe de santo não ensinava, que ninguém dava atenção ou simplesmente afirmar que a espiritualidade não funcionou.
Mas existe outra pergunta, talvez mais desconfortável:
Qual foi a sua responsabilidade dentro da espiritualidade que você escolheu viver?
Depois de décadas de caminhada religiosa, uma coisa se torna cada vez mais evidente: muitas pessoas aprenderam a colocar no outro a responsabilidade por aquilo que elas mesmas deixaram de fazer.
E espiritualidade não funciona assim.
Orixá não existe para substituir a sua responsabilidade
Quando alguma coisa dá errado, existe uma tendência humana de procurar rapidamente um culpado.
É o sacerdote.
É a casa.
É o irmão de santo.
É o Orixá.
É Exu.
É a Pombogira.
É a espiritualidade.
Poucas vezes a primeira pergunta é:
“Onde eu errei?”
Antes de abandonar tudo, jogar seus objetos religiosos fora ou declarar que determinada tradição não funciona, é necessário refletir.
Onde você errou?
O que deixou de fazer?
Quais orientações recebeu e não cumpriu?
Quais responsabilidades assumiu quando entrou naquela tradição?
O que poderia ter feito de maneira diferente?
Isso também vale para o sacerdote. Uma liderança religiosa precisa saber reconhecer seus próprios erros, rever comportamentos e compreender quando algo precisa ser modificado.
Espiritualidade exige responsabilidade dos dois lados.
O Orixá não deveria ser transformado no culpado pelos problemas humanos. Dentro da compreensão religiosa aqui apresentada, sua função está relacionada ao equilíbrio, à orientação, à construção e à busca de soluções.
Mas existe algo que nem o Orixá pode fazer em seu lugar:
assumir a responsabilidade pela sua própria vida.
Quem é você dentro da espiritualidade?
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes de todo o processo:
Quem sou eu?
Quem sou dentro da minha religião?
Quem sou dentro da minha família?
Quem sou dentro da sociedade?
Quem sou dentro da minha comunidade?
E quem sou quando ninguém está olhando?
Não adianta querer fazer Orixá, assentar Exu, cultuar Pombogira, entrar na Jurema, buscar Ifá ou acumular iniciações se não existe disposição para cuidar daquilo que foi assumido.
Muita gente deseja receber.
Poucos querem cuidar.
Querem iniciação, mas não querem obrigação.
Querem fundamento, mas não querem disciplina.
Querem título, mas não querem aprendizado.
Querem o assentamento, mas não querem manter o compromisso com ele.
Uma iniciação não é uma formatura.
Também não é matrícula de academia que você abandona quando perde a vontade.
Uma iniciação representa a entrada em uma relação de responsabilidade espiritual.
Espiritualidade também é disciplina
Em muitas tradições, existem períodos específicos de alimentação, banhos, ervas, recolhimento, rezas, horários e comportamentos.
Por quê?
Porque existe uma construção de disciplina.
Quando uma pessoa passa por uma iniciação, não deveria aprender somente nomes, cantigas ou gestos. Ela precisa começar a compreender por que determinadas coisas são feitas.
Por que aquela folha?
Por que aquele alimento?
Por que determinado banho?
Por que determinada reza?
Por que existe um horário específico?
Por que existe um preceito?
Quando o fundamento desaparece e permanece somente a reprodução, a religião começa a se tornar um conjunto de gestos vazios.
A pessoa faz, mas não sabe por quê.
E quando alguém não compreende aquilo que pratica, fica muito mais fácil abandonar.
O sacerdote não deveria correr atrás de adulto para ensinar
Existe uma inversão que precisa ser discutida.
O sacerdote possui responsabilidade de ensinar. Evidentemente.
Mas o iniciado também possui responsabilidade de procurar aprender.
Não deveria ser necessário o sacerdote correr atrás de um adulto perguntando diariamente:
“Você estudou?”
“Você cuidou do seu Orixá?”
“Você rezou?”
“Você quer aprender?”
O filho de Orixá também precisa procurar seus mais velhos.
Precisa perguntar.
Precisa observar.
Precisa participar.
Precisa estudar.
Precisa estar presente.
É curioso perceber que algumas pessoas não encontram tempo para permanecer dentro da própria casa religiosa aprendendo, mas encontram horas para assistir vídeos, comprar apostilas, consumir cursos e acompanhar conteúdos de desconhecidos na internet.
O problema não está em estudar pela internet.
O problema começa quando alguém acredita que o conteúdo digital substitui completamente a experiência.
Assistir todas as temporadas de uma série médica não transforma ninguém em médico.
Da mesma maneira, assistir centenas de vídeos sobre religião não transforma automaticamente alguém em sacerdote.
Seu sacerdote não foi iniciado no TikTok
Essa frase precisa ser compreendida:
seu sacerdote não foi iniciado no TikTok, no Instagram ou no YouTube.
Existe uma trajetória por trás de uma pessoa que realmente passou por processos religiosos.
Existiram mais velhos.
Existiu recolhimento.
Existiram noites sem dormir.
Existiram obrigações.
Existiram erros.
Existiram correções.
Existiu aprendizado.
Existiu convivência.
Hoje é possível encontrar conteúdo sobre praticamente tudo na internet.
Candomblé, Umbanda, Ifá, Kimbanda, Jurema, magia e diferentes sistemas espirituais.
Isso democratizou muito conhecimento, o que pode ser positivo.
Mas criou outro problema:
a ilusão de formação.
Ler sobre um fundamento não significa dominar aquele fundamento.
Assistir alguém realizando um ritual não significa estar preparado para reproduzi-lo.
Fazer um curso não significa automaticamente possuir autoridade religiosa.
Informação e iniciação são coisas diferentes.
Estamos formando iniciados ou colecionadores de títulos?
Essa pergunta precisa incomodar:
Estamos formando religiosos ou colecionadores de títulos?
Hoje encontramos pessoas querendo acumular assentamentos, iniciações, nomes, cargos e funções.
Querem Exu.
Querem Pombogira.
Querem mestre.
Querem Orixá.
Querem Ifá.
Querem Jurema.
Querem outro assentamento.
E depois outro.
Mas quantas dessas pessoas conseguem explicar profundamente aquilo que já possuem?
Antes de perguntar apenas:
“Qual é o meu Orixá?”
Talvez seja necessário aprender a perguntar:
“Como eu cuido?”
“Como eu rezo?”
“Qual é a história?”
“Quais folhas pertencem ao seu culto?”
“Quais são seus preceitos?”
“O que essa energia representa?”
“Como esse conhecimento pode transformar minha vida?”
Ter dez assentamentos abandonados não representa evolução espiritual.
Mais vale um assentamento bem cuidado do que dez abandonados.
Quais são as obrigações de um iniciado?
Muito se fala sobre os direitos de quem entra em uma casa de axé.
Mas quais são suas obrigações?
Uma das primeiras é aprender sobre aquilo em que foi iniciado.
Se você cultua Orixá, precisa estudar Orixá.
Precisa compreender o culto.
Precisa conhecer sua cosmologia.
Precisa compreender conceitos fundamentais.
Precisa saber o que é Ori.
Precisa conhecer Odù dentro da tradição que pratica.
Precisa conhecer os princípios da casa onde está.
Precisa entender que existem hierarquia, convivência e responsabilidade coletiva.
Não se entra em uma comunidade espiritual apenas para receber.
Você também faz parte dela.
Isso significa aprender a respeitar o irmão, compreender suas limitações, ajudar quando puder e também saber pedir ajuda quando precisar.
Um dos grandes problemas é acreditar que não precisamos de ninguém.
Precisamos.
Nenhuma pessoa domina tudo.
Ninguém é excelente em cantar, tocar, dançar, preparar todos os rituais, conhecer todas as folhas, interpretar todos os sistemas oraculares e executar todas as funções.
Até o sacerdote continua aprendendo.
Reconhecer isso não diminui ninguém.
Pelo contrário.
É sinal de maturidade.
O pai de santo virou funcionário do filho de santo?
Outra inversão que precisa ser discutida está na relação com a liderança religiosa.
Algumas pessoas parecem acreditar que o sacerdote precisa permanecer disponível 24 horas por dia.
Mandou uma mensagem?
Tem que responder imediatamente.
Ligou?
Tem que atender.
Está com um problema?
O sacerdote precisa abandonar tudo para resolver.
Mas o sacerdote também tem família.
Também trabalha.
Também descansa.
Também fica doente.
Também possui problemas.
Também precisa cuidar da própria espiritualidade.
Também precisa ter vida particular.
Acolhimento não significa disponibilidade ilimitada.
Existe uma diferença entre acolher uma pessoa que realmente atravessa uma situação difícil e criar uma relação na qual ela transfere continuamente todas as responsabilidades para o sacerdote.
Quando toda semana existe uma emergência, alguma coisa precisa ser revista.
Seu sacerdote demora para responder. Ele está errado?
Não necessariamente.
Houve épocas em que determinadas casas estabeleciam dias específicos para conversar com filhos de santo.
Existia horário.
Existia organização.
Existia hierarquia.
Isso não significava falta de amor.
Significava estrutura.
A tecnologia criou uma expectativa de disponibilidade imediata. Como carregamos o celular o tempo inteiro, passamos a acreditar que todo mundo deveria estar acessível o tempo inteiro.
Não deveria ser assim.
Uma comunidade religiosa saudável precisa estabelecer limites.
O sacerdote não deveria viver refém do WhatsApp.
E o iniciado não deveria depender de uma mensagem diária do sacerdote para lembrar que possui responsabilidades espirituais.
A casa de axé não é um hotel
Outro comportamento precisa ser revisto.
A pessoa chega.
Come.
Bebe.
Participa.
Usa a estrutura.
Recebe ajuda.
Mas nunca pergunta:
“Como posso contribuir?”
Uma casa espiritual possui despesas.
Possui manutenção.
Possui alimentos.
Possui materiais.
Possui limpeza.
Possui organização.
Possui pessoas trabalhando.
Contribuição não significa apenas dinheiro.
Existe trabalho.
Existe presença.
Existe colaboração.
Existe cuidado.
Existe responsabilidade.
Casa de axé não deveria ser confundida com hotel, restaurante ou serviço de atendimento particular.
Comunidade significa troca.
Por que algumas casas estão fechando?
Existem sacerdotes cansados.
Existem iniciados cansados.
Existem casas encerrando atividades.
E existem pessoas que simplesmente não querem mais transmitir aquilo que aprenderam.
Precisamos perguntar por quê.
Parte disso passa pelo comportamento de quem procura uma casa apenas para receber.
Parte passa por sacerdotes que também perderam o compromisso com o ensino.
Parte passa pela transformação da religião em comércio, aparência e disputa por reconhecimento.
Número de filhos não é sinônimo de axé.
Uma casa lotada não significa necessariamente uma casa espiritualmente saudável.
Da mesma forma, uma casa pequena não significa ausência de fundamento.
Precisamos parar de medir espiritualidade por quantidade.
Curso não substitui vivência religiosa
Cursos são importantes.
Livros são importantes.
Aulas são importantes.
A internet pode ser uma ferramenta extraordinária.
Mas precisamos entender sua função.
Um curso cria uma rota de conhecimento.
Ele apresenta conceitos.
Organiza informações.
Explica fundamentos.
Desperta perguntas.
Oferece referências.
Mas estudar teoricamente determinada tradição não significa automaticamente estar autorizado ou preparado para executar tudo aquilo.
O conhecimento precisa encontrar a experiência.
A teoria precisa conversar com a prática.
Quem pertence a uma tradição deve levar suas dúvidas aos seus mais velhos, comparar ensinamentos, observar a prática e compreender o contexto.
Por isso projetos de educação espiritual podem ajudar tanto quando trabalham com responsabilidade: não para fabricar sacerdotes instantâneos, mas para agregar conhecimento.
Conhecimento não pode ser confundido com autorização
Essa diferença é fundamental.
Você pode estudar uma folha sem estar autorizado a executar determinado ritual.
Pode conhecer a história de um Orixá sem possuir determinada função sacerdotal.
Pode estudar um sistema oracular sem estar preparado para atender pessoas.
Pode conhecer elementos de Kimbanda sem automaticamente se tornar kimbandeiro.
Conhecimento amplia sua compreensão.
Mas determinadas funções religiosas dependem de processos próprios de cada tradição.
Quando essa fronteira desaparece, aparecem pessoas com muita informação e pouca estrutura.
E isso pode se tornar perigoso.
Kimbanda é muito mais do que incorporação
Outro exemplo dessa superficialidade aparece quando Kimbanda é resumida simplesmente à incorporação de Exu e Pombogira.
Kimbanda possui fundamentos.
Possui relação com ancestralidade.
Possui folhas.
Possui cânticos.
Possui elementos próprios.
Possui formas específicas de trabalhar e compreender suas forças espirituais.
Uma folha possui função.
Uma vela possui função.
Um charuto possui função dentro de determinados contextos.
Um cântico possui função.
Os elementos não deveriam ser utilizados aleatoriamente simplesmente porque alguém viu outra pessoa utilizando.
É preciso conhecer aquilo que se manipula.
Sem conhecimento, a pessoa pode receber uma informação e nem sequer conseguir interpretá-la.
Aprender exige humildade
Talvez este seja um dos maiores ensinamentos de toda essa discussão:
ninguém sabe tudo.
Depois de décadas dentro da espiritualidade, ainda existe coisa para aprender.
Sempre existirá.
O problema começa quando a pessoa aprende meia dúzia de fundamentos e passa a acreditar que domina uma tradição inteira.
Quanto mais seriamente alguém estuda, mais percebe a extensão daquilo que ainda não conhece.
Por isso precisamos voltar a perguntar.
Precisamos ouvir os mais velhos.
Precisamos conhecer as casas matrizes de nossas tradições quando possível.
Precisamos conhecer a história.
Precisamos buscar as fontes.
Quem pertence a uma linhagem precisa querer saber de onde ela veio.
Não para copiar tudo indiscriminadamente, mas para compreender sua própria origem.
A espiritualidade não deveria destruir sua humanidade
Ser religioso não significa deixar de ser humano.
Sacerdote também pode descansar.
Pode viajar.
Pode se divertir.
Pode constituir família.
Pode ter relacionamento.
Pode trabalhar fora.
Pode jogar videogame.
Pode ter momentos particulares.
A espiritualidade não deveria exigir uma personagem permanente.
O mesmo vale para o iniciado.
O que deve existir é responsabilidade.
Sua vida particular não elimina sua obrigação espiritual.
Sua orientação afetiva não elimina sua responsabilidade religiosa.
Seu estado civil não elimina seus compromissos.
Sua profissão não elimina aquilo que você assumiu.
A questão central não deveria ser a aparência da pessoa.
A questão é:
existe integridade?
Existe respeito?
Existe compromisso?
Existe cuidado?
Existe responsabilidade com aquilo que foi assumido?
Espiritualidade também é família
O conceito de família aparece constantemente dentro das tradições religiosas.
Falamos pai.
Mãe.
Filho.
Irmão.
Avô.
Avó.
Mais velho.
Mais novo.
Mas não podemos utilizar essas palavras apenas como títulos.
Se existe família espiritual, precisa existir responsabilidade coletiva.
Família não significa ausência de conflito.
Também não significa aceitar qualquer comportamento.
Significa compreender que pertencemos a uma estrutura de relações.
E relações exigem limites.
Às vezes alguém vai embora.
Às vezes uma relação religiosa termina.
Às vezes uma pessoa permanece anos afastada e deseja retornar.
É possível recomeçar?
Em muitos casos, sim.
Mas retornar também significa conversar, compreender o que aconteceu e reconstruir responsabilidades.
Não adianta voltar para repetir exatamente os mesmos comportamentos que provocaram o afastamento.
Antes de abandonar tudo, faça algumas perguntas
Se você está pensando em abandonar sua casa, seu culto ou sua caminhada espiritual, não tome uma decisão apenas no calor de uma mágoa.
Pergunte:
O que realmente aconteceu?
Qual foi a minha responsabilidade?
Qual foi a responsabilidade do sacerdote?
Eu procurei aprender?
Eu cumpri aquilo que me foi orientado?
Eu participei da comunidade ou apenas procurei a casa quando precisei?
Eu esperava do sacerdote algo que deveria fazer por mim mesmo?
Existe diálogo?
Existe fundamento?
Existe respeito?
Ainda existe possibilidade de reconstrução?
E existe uma pergunta ainda mais importante:
Estou abandonando uma casa ou estou abandonando minha responsabilidade?
São coisas diferentes.
Espiritualidade não é acúmulo. É compromisso.
Vivemos uma época de muita informação e pouca profundidade.
Nunca tivemos acesso a tantos livros, vídeos, cursos, aulas, sacerdotes e tradições diferentes.
Mas acesso à informação não significa maturidade espiritual.
Talvez o grande desafio do nosso tempo não seja encontrar conhecimento.
É permanecer tempo suficiente diante de um conhecimento para realmente compreendê-lo.
Espiritualidade exige tempo.
Exige prática.
Exige observação.
Exige humildade.
Exige responsabilidade.
Você não precisa conhecer todas as tradições.
Não precisa possuir todos os títulos.
Não precisa ter dez assentamentos.
Não precisa provar para a internet que sabe alguma coisa.
Precisa conhecer aquilo que decidiu viver.
Precisa cuidar daquilo que recebeu.
Precisa respeitar aquilo em que foi iniciado.
E precisa compreender que sacerdote e iniciado possuem responsabilidades diferentes, mas ambos têm responsabilidades.
Conhecimento espiritual precisa caminhar junto com vivência
O estudo possui um papel fundamental nesse processo.
Projetos de educação espiritual, cursos, livros e materiais podem abrir caminhos para que uma pessoa compreenda melhor aquilo que pratica.
A proposta de uma escola de conhecimento espiritual, como a PEDUC – Portal da Educação Espiritual, deve ser compreendida justamente nesse sentido: oferecer conhecimento, explicar conceitos, organizar estudos e ajudar o aluno a compreender práticas que muitas vezes observou durante anos sem que alguém lhe explicasse seus fundamentos.
Isso não substitui iniciação.
Não substitui sacerdote.
Não transforma automaticamente ninguém em autoridade religiosa.
Educação espiritual deve agregar conhecimento, não fabricar títulos.
O mesmo princípio vale para estudos específicos sobre Ori, Orixá, Odù, Obi, jogo de búzios, velas, folhas e outros fundamentos.
Estude para compreender.
Não estude apenas para ostentar aquilo que aprendeu.
Afinal, por que tanta gente está abandonando os terreiros?
Não existe uma única resposta.
Existem sacerdotes que erram.
Existem casas que perderam seus princípios.
Existem abusos que não devem ser tolerados.
Existem relações que realmente precisam terminar.
Mas também existem iniciados que não querem assumir responsabilidades.
Existem pessoas que desejam receber sem contribuir.
Existem pessoas que querem atenção permanente.
Existem pessoas que acumulam títulos sem cuidar de nenhum deles.
Existem pessoas que confundiram acesso à informação com autoridade.
E existem pessoas que culpam a espiritualidade por decisões que elas próprias tomaram.
Por isso não devemos transformar esse debate numa guerra entre sacerdote e filho de santo.
Precisamos voltar ao fundamento.
Qual é a responsabilidade de cada um?
O sacerdote precisa ensinar, orientar, estabelecer limites, reconhecer seus erros e preservar aquilo que recebeu.
O iniciado precisa estudar, participar, respeitar, perguntar, cuidar e assumir aquilo que escolheu.
E ambos precisam compreender que ninguém cresce espiritualmente sozinho.
O verdadeiro axé não está na aparência
Axé não é casa cheia.
Axé não é quantidade de seguidores.
Axé não é roupa bonita.
Axé não é título.
Axé não é quantidade de assentamentos.
Axé não é mostrar nas redes sociais quantas iniciações alguém possui.
Existe algo muito mais profundo.
Está na continuidade.
Na responsabilidade.
No conhecimento.
No respeito.
Na transmissão.
No cuidado.
E, principalmente, na capacidade de compreender que espiritualidade não existe para retirar de nós a responsabilidade pela vida.
Ela deveria justamente nos ensinar a assumir essa responsabilidade.
Antes de procurar mais um título, pergunte-se:
Eu conheço profundamente aquilo que já recebi?
Antes de procurar mais um assentamento:
Eu cuido corretamente daquele que já possuo?
Antes de culpar seu sacerdote:
Eu fiz a minha parte?
E antes de um sacerdote culpar todos os seus filhos:
Ele também fez a parte dele?
Talvez seja justamente nesse encontro entre conhecimento, responsabilidade, respeito e humildade que possamos reconstruir relações espirituais mais saudáveis.
Porque espiritualidade não deveria ser uma coleção de títulos.
Espiritualidade é compromisso.
— Mestre Marcelo Alban
Raízes do Culto