Entre mitos, tradição, Ori, Odu e o verdadeiro conhecimento do culto aos Orixás

Por Mestre Marcelo Alban — Raízes do Culto
Pare um pouco o que você está fazendo.
Puxe uma cadeira. Sente-se. Respire. E leia este texto como se eu estivesse falando diretamente com você agora, porque é exatamente essa a intenção.
Eu quero conversar com você sobre uma frase que muita gente já ouviu, talvez você mesmo já tenha escutado:
“Seu Orixá está brigando pela sua cabeça.”
E eu quero começar justamente por aí.
Cuidado com aquilo que estão ensinando a você.
Não estou dizendo isso para atacar uma religião, uma casa, um sacerdote ou uma tradição. Estou dizendo porque, quando falamos de Orixá, estamos falando de conhecimento, tradição, ancestralidade e responsabilidade. E conhecimento não pode ser construído apenas em cima de frases repetidas.
Então vamos conversar.
O Orixá está realmente brigando pela sua cabeça?
Não.
Orixá não briga pela cabeça de ninguém.
Quem briga são as pessoas.
Quem discute são as pessoas.
Quem cria disputa são as pessoas.
Quem muitas vezes tenta convencer você de que existe uma urgência espiritual para que você faça determinada coisa são as pessoas.
Durante muito tempo, ouvi histórias como:
“Você precisa fazer esse Orixá porque ele está brigando pela sua cabeça.”
“Você precisa raspar porque, se não fizer, alguma coisa vai acontecer.”
“Você tem dois Orixás disputando sua cabeça.”
“Um vai ser seu Orixá principal e o outro será seu ajuntó porque eles estão brigando.”
Não é assim que eu compreendo o culto.
A ideia de que dois Orixás ficam disputando uma pessoa como se fossem dois indivíduos em conflito não faz sentido dentro da própria compreensão de que as divindades são expressões de uma força maior.
Se todos esses Orixás estão inseridos em uma ordem espiritual, como eu posso imaginar que eles estejam literalmente brigando entre si pela cabeça de uma pessoa?
É como imaginar que meu fígado esteja brigando com meu rim, ou que meu coração esteja brigando com meu pulmão.
Cada parte possui uma função.
Cada força possui uma função.
E é justamente isso que precisamos aprender a enxergar.
A transcrição da aula registra exatamente essa crítica à ideia de uma “disputa” entre Orixás e apresenta Ori como algo que não deve ser tratado dessa maneira.
Antes de acreditar, procure compreender
Existe um problema muito grande quando a pessoa entra em uma tradição religiosa sem conhecimento.
Ela passa a acreditar em tudo que escuta.
E fé sem conhecimento pode colocar uma pessoa nas mãos de qualquer discurso.
Eu não estou dizendo que você não deve ter fé.
Estou dizendo que você precisa estudar.
Você precisa perguntar.
Você precisa entender.
Você precisa saber de onde veio aquilo que estão ensinando.
Porque existem histórias que foram sendo repetidas durante gerações e, com o tempo, muita coisa acabou sendo apresentada como se fosse uma verdade universal.
Mas tradição não é uma coisa única.
Existem diferentes povos, diferentes regiões, diferentes casas, diferentes famílias e diferentes formas de transmissão do conhecimento.
Por isso, quando alguém diz:
“É assim porque no culto é assim.”
Eu pergunto:
Em qual culto? Em qual tradição? Em qual família? Em qual casa? Em qual região?
Essa pergunta muda tudo.
Ori não é simplesmente “o seu Orixá”
Outra confusão muito comum está justamente na palavra Ori.
Quando falamos de Ori, estamos falando de cabeça, mas não devemos reduzir o conceito a uma explicação superficial.
Na própria aula, eu explico a palavra a partir de seus elementos e mostro como diferentes traduções podem tentar aproximar conceitos que não possuem uma correspondência perfeita em português.
E é por isso que você precisa ter cuidado.
Não pegue uma palavra de uma língua tradicional, traduza de maneira simplificada e depois construa toda uma teoria em cima daquela tradução.
É assim que os mitos começam.
Uma pessoa interpreta de uma maneira.
Outra repete.
Uma terceira transforma aquilo em regra.
E, depois de alguns anos, alguém diz:
“Isso sempre foi assim.”
Nem sempre foi.
“Você já nasce com seu Orixá?”
Essa também é uma pergunta que precisa ser tratada com cuidado.
Eu não gosto de generalizações.
Não gosto quando alguém diz:
“Todo mundo nasce com determinado Orixá e pronto.”
Também não gosto da ideia de que Orixá simplesmente “escolhe” qualquer pessoa de maneira automática.
Naquilo que aprendi e vivenciei, existe uma compreensão de necessidade.
Nós trabalhamos determinadas forças porque existe uma razão para aquela força estar sendo trabalhada.
Existe uma necessidade.
Existe uma finalidade.
Existe uma função.
E é aí que o estudo começa a ficar interessante.
Porque, quando você entende o Orixá apenas como uma personalidade, você perde uma parte enorme do conhecimento.
Mas quando você começa a compreender a função daquela força, começa a perceber por que determinadas relações existem dentro do culto.
Na transcrição, eu deixo claro que não estou tratando a questão de forma generalizada: existem casos específicos em que uma pessoa pode ter uma experiência muito forte de direcionamento espiritual, mas isso não significa transformar uma exceção em regra para todos.
Como descobrir o Orixá?
Aqui também existe muita confusão.
Eu aprendi com minha zeladora uma coisa que considero importante: Orixá é visto no jogo de búzios.
Existem também procedimentos e rituais específicos relacionados à identificação e confirmação dentro de determinadas tradições.
Estou falando daquilo que eu vivi.
Daquilo que aprendi.
Daquilo que conheci.
E faço questão de dizer isso porque não tenho interesse em transformar minha experiência em uma verdade absoluta para todas as casas.
Quando eu era mais novo dentro do culto, aprendi observando, participando, ajudando e convivendo.
Eu fui a outras casas.
Aprendi cantigas.
Aprendi maneiras diferentes de dançar.
Observei rituais.
Conversei com pessoas antigas.
Mas sempre compreendi que cada casa possui seus fundamentos.
E isso é muito importante.
A tradição não é uma receita única
Imagine que você entre em uma casa e aprenda determinado ritual.
Depois vá para outra casa e encontre uma forma diferente de fazer.
Isso significa automaticamente que alguém está errado?
Não necessariamente.
Pode significar que você está diante de tradições diferentes.
Essa é uma das coisas que mais precisam ser compreendidas quando falamos sobre culto aos Orixás.
Existem casas matrizes.
Existem famílias religiosas.
Existem tradições que foram preservadas de maneiras diferentes.
Existem conhecimentos que foram transmitidos e outros que foram perdidos, modificados ou incorporados.
E, quando diferentes tradições se encontram, novas combinações podem surgir.
O problema começa quando alguém pega um ritual de uma tradição, outro de uma segunda tradição e um terceiro de uma terceira tradição e apresenta tudo como se tivesse surgido de uma única origem.
Não é assim.
A transcrição aborda justamente essa preocupação com a mistura de rituais e a necessidade de respeitar as bases e tradições específicas de cada casa e família.
Não confunda família espiritual com o nome da casa
Isso é outra coisa que precisa ser entendida.
Você pode ter aprendido com determinada pessoa.
Pode ter sido iniciado por determinada pessoa.
Pode ter passado por determinada casa.
Mas isso não significa automaticamente que você pertença diretamente a todas as casas às quais aquela pessoa esteve ligada.
Eu mesmo explico isso através da minha própria trajetória.
Se eu passei determinado período aprendendo com uma pessoa, isso estabelece uma relação dentro daquela linhagem.
Mas eu não posso simplesmente pegar o nome de uma casa na qual nunca sentei, nunca vivi e nunca passei por determinado processo e dizer:
“Eu sou daquela casa.”
Não é assim.
A genealogia espiritual precisa ser respeitada.
Você precisa saber quem ensinou você.
Quem iniciou você.
Onde aquilo aconteceu.
Qual tradição foi transmitida.
E qual é realmente a sua relação com aquela família.
Isso é respeito.
Orixá não existe para transformar você em uma caricatura
Agora vamos falar de outra coisa que eu vejo demais.
A pessoa começa a se identificar com um Orixá e passa a justificar todos os próprios defeitos através dele.
“Eu sou assim porque sou de Ogum.”
“Eu sou briguento porque sou de Ogum.”
“Eu sou explosivo porque sou de Xangô.”
“Eu sou fofoqueiro porque sou de Exu.”
Não.
Isso não funciona.
Você não pode usar o Orixá como desculpa para não corrigir seu próprio comportamento.
Se você cultua uma força guerreira, isso não significa que você precisa sair procurando briga.
Muito pelo contrário.
A força guerreira pode existir justamente para que você tenha estratégia, coragem, inteligência e capacidade de vencer sem precisar transformar sua vida em uma guerra permanente.
Na aula, eu apresento Ogum nesse sentido: não como uma autorização para a violência, mas como uma força relacionada à vitória, estratégia, desenvolvimento e abertura de caminhos.
Uma história sobre Ogum que você precisa entender
Vou contar uma história porque às vezes uma história ensina mais do que dez explicações.
Conheci um Ogã do Rio de Janeiro.
Era uma pessoa muito boa.
Trabalhador.
Dentro da casa, fazia de tudo.
Se precisava limpar, limpava.
Se precisava cantar, cantava.
Se precisava montar alguma coisa, montava.
Era um homem dedicado.
Mas tinha um problema.
Gostava de beber, ficar em porta de bar, jogar bilhar e, principalmente, tinha uma personalidade muito valente.
Ele gostava de resolver as coisas na força.
Em determinado momento, recebeu uma orientação relacionada a Ogum:
“Você precisa controlar um pouco essa valentia.”
Ele riu.
E respondeu, em essência:
“Mas eu sou de Ogum.”
Essa é a armadilha.
Você recebe uma força e acha que aquela força serve para justificar aquilo que você já queria fazer.
Algum tempo depois, ele acabou se colocando em uma situação de risco e sofreu uma violência gravíssima.
E é aí que está o ensinamento.
O Orixá não existe para alimentar sua arrogância.
O Orixá também pode servir para alertar você.
Pode mostrar onde você está errando.
Pode mostrar onde você precisa mudar.
Pode mostrar aquilo que precisa ser evitado.
O ensinamento que ficou para mim é simples:
não use o Orixá para justificar seus defeitos.
Use o conhecimento para compreender aquilo que precisa ser transformado.
Orixá também é alerta
Eu mesmo vivi uma situação parecida.
Durante uma época, eu gostava muito de carros preparados.
Tinha carros muito fortes.
Gostava de velocidade.
Gostava de acelerar.
Até que, em uma consulta de Ifá, recebi um alerta para ter mais cuidado.
Depois disso, aconteceu uma situação na estrada que me fez lembrar imediatamente daquela orientação.
Uma pedra atingiu o carro e provocou uma situação que poderia ter sido muito pior.
Aquilo me fez refletir.
O conhecimento espiritual não deveria ser utilizado apenas para dizer:
“Olha o que eu vou ganhar.”
Também deveria servir para mostrar:
“Olha o que eu preciso evitar.”
Essa é uma diferença enorme.
A pessoa que só procura espiritualidade para conseguir aquilo que deseja pode acabar esquecendo uma das maiores funções do conhecimento:
aprender a não caminhar em direção ao próprio problema.
Orixá não é desculpa para o seu comportamento
Se você é de uma força guerreira, aprenda estratégia.
Se você trabalha com uma força ligada à caça, aprenda paciência.
Se você trabalha com uma força ligada à justiça, aprenda responsabilidade.
Se trabalha com uma força ligada à prosperidade, aprenda também a administrar aquilo que recebe.
Não adianta cultuar uma força e continuar repetindo o comportamento que destrói aquilo que você deseja construir.
É por isso que eu digo:
conheça o Orixá que você cultua.
Não basta acreditar.
Você precisa conhecer.
A função dos Orixás
Dentro da aula, eu explico que os Orixás aparecem relacionados aos Odus e às diferentes funções dentro da estrutura espiritual.
Não é simplesmente:
“Esse Orixá é bom.”
“Esse Orixá é bravo.”
“Esse Orixá é rico.”
“Esse Orixá é guerreiro.”
É muito mais profundo.
Cada força possui funções, relações, características, fundamentos e contextos.
Ogum pode estar relacionado à coragem, estratégia, desenvolvimento e abertura de caminhos.
Oxóssi também exige compreensão de estratégia e paciência: o caçador não dispara sua flecha de qualquer maneira. Ele sabe esperar o momento.
Exu não deve ser reduzido à fofoca, à confusão ou à malandragem superficial. Dentro da minha explicação, Exu gerencia caminhos e situações de acordo com as necessidades.
Obaluaiê aparece relacionado à defesa, transformação e enfrentamento de situações difíceis.
Oxum aparece relacionada à amabilidade, renovação e objetivos.
Xangô traz resistência, destreza, acolhimento e reconhecimento.
Airá possui fundamentos próprios e uma relação que precisa ser estudada sem simplesmente misturá-lo automaticamente a tudo aquilo que se fala sobre Xangô.
Obatalá também não deve ser reduzido a uma caricatura de “paciência”. Na minha compreensão, existe ali liderança, autoridade, coragem, pensamento e capacidade de abrir caminhos.
E perceba uma coisa:
isso é apenas uma introdução.
Porque, quando você realmente começa a estudar, percebe que cada Orixá possui uma profundidade muito maior.
O exemplo de Obatalá
Obatalá é um exemplo perfeito de como uma explicação superficial pode enganar.
Muita gente simplifica e diz:
“Obatalá é equilíbrio.”
Mas eu pergunto:
O que significa equilíbrio?
Equilíbrio não é simplesmente ficar parado.
Equilíbrio pode significar saber comandar.
Saber liderar.
Saber pensar.
Saber tomar decisões.
Saber abrir caminhos.
Por isso existem diferentes manifestações e fundamentos relacionados a Obatalá.
Dentro daquilo que apresentei na live, falo de Ogiã como uma força relacionada a pensamentos abertos, capacidade de criar, construir e enxergar possibilidades onde outras pessoas não enxergam.
Também apresento aspectos relacionados à construção da família e à necessidade de cultivar a amabilidade.
E isso mostra uma coisa importante:
não existe conhecimento sério sobre Orixá em uma única frase.
O problema de conhecer mais pela fé do que pelo estudo
Vou falar uma coisa que pode incomodar algumas pessoas:
Se você tem fé, mas não tem conhecimento, você pode ser facilmente conduzido.
Porque alguém pode falar:
“É assim.”
E você responder:
“Eu acredito.”
Mas acreditar não significa compreender.
Você precisa sentir.
Você precisa conhecer.
Você precisa criar intimidade com aquilo que cultua.
Você precisa entender o que está fazendo.
É justamente por isso que eu digo que não quero uma pessoa simplesmente cheia de fé.
Eu quero uma pessoa cheia de conhecimento.
Porque conhecimento permite que você questione.
E perguntar não é desrespeitar.
Perguntar é estudar.
O que é quizila?
Agora vamos entrar em outro assunto que gera muita confusão:
quizila, euó e interdições.
Existem proibições que fazem sentido dentro de determinadas tradições e determinados contextos.
Mas você não pode pegar uma proibição de uma casa e transformá-la em regra universal para todos os cultos.
Existem diferenças culturais.
Existem diferenças entre tradições.
Existem diferenças entre regiões.
Existem alimentos que fazem sentido dentro de determinado contexto e outros que não fazem.
Na live, por exemplo, discutimos como determinadas restrições alimentares atribuídas a certos Orixás variam de acordo com a tradição e com a casa. Também aparece o exemplo de interdições que existem dentro de determinadas linhagens, mas não necessariamente em todas.
Isso é muito importante.
Porque, quando você não conhece a origem, começa a criar medo.
“Se eu comer isso, minha vida vai acabar.”
“Se eu usar determinada roupa, vou perder dinheiro.”
“Se eu comer determinada fruta, meu caminho vai fechar.”
Calma.
Primeiro precisamos saber:
qual é a tradição?
qual é o Odu?
qual é a casa?
qual é a origem daquela interdição?
Nem toda quizila pode ser simplesmente transportada de uma terra para outra
Existe outro detalhe importante.
As tradições africanas estão relacionadas a contextos culturais e ambientais específicos.
Um alimento existente em determinada região pode simplesmente não existir em outra.
Então determinadas interdições podem passar por adaptações.
Na própria aula eu apresento o exemplo de uma restrição relacionada a uma fruta que não aparece diretamente como a mesma fruta no contexto brasileiro, mas pode encontrar uma correspondência dentro da experiência da pessoa.
Isso mostra por que precisamos estudar.
Não basta decorar uma lista de:
“Pode isso.”
“Não pode aquilo.”
Você precisa compreender por que.
O ebó não é simplesmente “limpeza espiritual”
Agora chegamos a uma das partes mais importantes.
Muita gente pergunta:
“Você pode me ensinar um ebó para limpeza?”
E eu respondo:
Ebó não é simplesmente limpeza.
Dentro daquilo que ensino, ebó está relacionado ao alinhamento da pessoa com o seu destino.
É trabalho.
É relação.
É ajuste.
É transformação.
É uma maneira de trabalhar aquilo que está faltando dentro de determinada situação.
Na live, explico justamente que o ebó não deve ser reduzido ao conceito moderno de “limpeza espiritual”, mas compreendido como uma forma de colocar a pessoa novamente em harmonia com o caminho que precisa seguir.
Por isso eu gosto de dizer:
não existe ebó genérico para todo mundo.
Você precisa saber o que está sendo trabalhado.
Precisa saber o que o oráculo está mostrando.
Precisa saber qual é a necessidade.
Ebó é transformação
Dentro da compreensão apresentada na aula, o ebó está ligado à transformação.
E isso explica por que não faz sentido sair oferecendo o mesmo procedimento para todas as pessoas.
Cada pessoa possui uma história.
Cada pessoa possui uma necessidade.
Cada pessoa possui uma relação diferente com seu caminho.
Por isso, quando você pergunta:
“Qual ebó eu faço?”
A pergunta anterior deveria ser:
“O que está acontecendo comigo?”
Depois:
“O que o oráculo está mostrando?”
E somente então:
“Qual trabalho é adequado?”
O maior problema: fazer sem saber por quê
Esse talvez seja um dos maiores problemas que vejo.
A pessoa faz.
Entrega.
Acende.
Reza.
Oferece.
E depois pergunta:
“Por que não funcionou?”
Eu pergunto:
Quem determinou aquilo?
Qual era o objetivo?
Qual era a necessidade?
Qual era o Odu?
Qual era a relação com o Orixá?
Qual era a orientação do oráculo?
Se ninguém consegue responder, então existe um problema.
O culto não deveria ser uma sequência automática de procedimentos.
É conhecimento aplicado.
É preciso saber o que está sendo feito.
O Oxé e a manutenção do culto
Outra palavra que precisa ser compreendida é Oxé.
Muita gente pensa que manutenção de assentamento significa simplesmente trocar água, colocar uma vela ou colocar comida.
Não é tão simples.
Naquilo que expliquei na live, Oxé está relacionado à manutenção realizada pelo sacerdote, ao acompanhamento, ao jogo e à compreensão daquilo que aquela força está indicando.
E existe uma coisa muito importante:
um Oxé pode não vir sozinho.
Pode haver relações entre forças.
Pode haver necessidade de observar o que está sendo mostrado.
Por isso, manutenção não é apenas “colocar alguma coisa”.
É preciso saber o que está sendo feito e por quê.
O assentamento não é uma peça decorativa
Quando você possui um assentamento, existe responsabilidade.
Não adianta ter vários elementos dentro de uma casa e abandonar a manutenção.
Eu uso uma comparação simples:
é como um encanamento.
Se você deixa tudo parado, sem manutenção, alguma coisa vai acontecer.
O problema não é “ciúme” do Orixá.
Orixá não precisa ser humanizado dessa maneira.
O que existe é uma necessidade de manutenção daquela estrutura cultual.
Na live, essa diferença é apresentada justamente para explicar que a questão não é Orixá “ficar com ciúme”, mas a necessidade de cuidar daquilo que foi estabelecido dentro do culto.
Orixá não é ciumento
Então vamos responder diretamente:
Orixá sente ciúmes porque você cultua outro Orixá?
Não.
Orixá não precisa ser colocado dentro da lógica humana de ciúme.
Se você possui diferentes cultos e diferentes assentamentos, existe uma responsabilidade de manutenção.
Você não pode simplesmente abandonar um deles porque começou a dar atenção a outro.
Isso não é ciúme.
É responsabilidade.
Orixá não é uma máquina de realizar desejos
Também precisamos parar de pensar assim:
“Eu fiz isso para Orixá, então agora ele tem que me dar aquilo.”
Não.
O culto envolve relação, troca, responsabilidade, conhecimento e compreensão.
Se você entrega alguma coisa e continua vivendo exatamente da mesma maneira, precisa olhar para o conjunto.
Talvez o problema esteja no trabalho.
Talvez esteja no comportamento.
Talvez esteja na orientação.
Talvez esteja na maneira como aquele culto está sendo conduzido.
Talvez aquilo nem fosse o que você precisava.
Por isso, eu sempre volto ao mesmo ponto:
o oráculo precisa orientar.
Não existe uma única tradição de Orixá
Outro erro muito comum é colocar tudo dentro de uma mesma caixa.
“Isso é do Candomblé.”
“Isso é do Ifá.”
“Isso é da Umbanda.”
“Isso é da Jurema.”
“Isso é da Quimbanda.”
Não funciona dessa maneira.
Existem aproximações, cruzamentos, influências e processos históricos.
Mas existem também diferenças.
Uma prática pode pertencer a determinada tradição e não ser utilizada da mesma forma em outra.
Na aula, eu falo justamente sobre como diferentes tradições foram se encontrando e como alguns rituais acabaram sendo incorporados ou misturados ao longo do tempo.
Por isso, estudar a origem é fundamental.
Por que as tradições se misturaram?
Porque pessoas viajaram.
Pessoas migraram.
Casas se encontraram.
Sacerdotes aprenderam uns com os outros.
Famílias religiosas estabeleceram relações.
Conhecimentos foram preservados em alguns lugares e esquecidos em outros.
E isso faz parte da história.
O problema não é existir mistura.
O problema é negar que ela existe.
E pior:
pegar uma mistura e apresentar como se fosse uma tradição única e original.
Quem é o “rei de Ketu”?
Outra pergunta que aparece é:
“Quem é o rei de Ketu: Exu ou Oxóssi?”
Para responder, primeiro precisamos compreender o contexto histórico.
Dentro da explicação apresentada na live, Exu aparece associado ao gerenciamento de Ketu, daí a referência a Exu Alaketu.
E novamente aparece a necessidade de compreender geografia, história, povos e organização cultural antes de transformar uma expressão em uma regra religiosa universal.
Esse é o tipo de assunto que não pode ser resolvido simplesmente com:
“Eu ouvi falar que é assim.”
Você precisa estudar.
Odu: muito mais do que uma conta de nascimento
Outro mito que precisa ser enfrentado:
“Eu fiz uma conta com minha data de nascimento e descobri meu Odu.”
Cuidado.
Naquilo que apresento na aula, existe uma diferença entre esse tipo de cálculo e o Odu dentro da estrutura de Ifá.
O Odu não deve ser transformado em uma simples conta de internet.
Existe uma estrutura tradicional, existem posições, combinações e interpretações.
Por isso, não reduza Odu a numerologia.
Na própria live, eu faço essa distinção e explico que o Odu precisa ser compreendido dentro do contexto do sistema ao qual pertence.
O Odu não é uma frase
Quando você começa a estudar Odu de verdade, percebe a profundidade.
Não é simplesmente:
“Seu Odu significa isso.”
Acabou.
Existem versos.
Existem histórias.
Existem itãs.
Existem interpretações.
Existem relações.
Existem caminhos.
Existem situações diferentes.
É por isso que quem realmente estuda precisa ler.
Precisa estudar.
Precisa voltar.
Precisa consultar.
Precisa aprender novamente.
Na live, eu explico que determinados conjuntos de versos podem conter uma quantidade enorme de conhecimento, exigindo leitura e estudo contínuos.
Odu e quizila caminham juntos em determinados contextos
Quando falamos de Odu, também precisamos compreender que determinadas interdições e orientações podem estar ligadas a ele.
É por isso que eu questiono:
Como você pode sair fazendo uma magia para alguém sem conhecer aquilo que está relacionado ao Odu daquela pessoa?
Imagine que determinada pessoa tenha uma interdição relacionada a um elemento.
E você utiliza exatamente aquele elemento em um trabalho.
Você está ajudando ou está contrariando aquilo que deveria ser observado?
Essa é a razão pela qual conhecimento é tão importante.
Na aula, apresento justamente o exemplo de uma pessoa cuja orientação dentro de determinado Odu envolve uma restrição relacionada ao obi, mostrando como uma mesma matéria ritual pode ter usos diferentes dependendo do contexto.
Não faça magia sem entender o contexto
Esse é um ensinamento que quero deixar muito claro:
não saia reproduzindo magia encontrada na internet.
Você não sabe para quem aquela magia foi ensinada.
Você não sabe qual era o Odu da pessoa.
Você não sabe qual era a finalidade.
Você não sabe quais eram as restrições.
Você não sabe qual era a tradição.
Você não sabe quem ensinou.
Você simplesmente viu alguém fazendo.
E copiou.
Isso não é estudo.
Isso é reprodução.
O conhecimento exige responsabilidade
Quanto mais você aprende, mais percebe que não sabe.
E isso é bom.
Porque a pessoa que acha que já sabe tudo geralmente parou de estudar.
Eu não quero que você leia este texto e saia dizendo:
“Agora eu sei tudo sobre Orixá.”
Não.
Eu quero que você saia fazendo perguntas.
Quero que você procure livros.
Quero que você procure pessoas sérias.
Quero que você conheça diferentes tradições.
Quero que você entenda a origem.
Quero que você aprenda a diferenciar uma experiência pessoal de uma regra tradicional.
Orixá não é uma competição
Não existe necessidade de transformar uma tradição em uma disputa.
“Minha casa sabe mais.”
“Meu Orixá é maior.”
“Minha tradição é verdadeira.”
“Seu ritual está errado.”
Calma.
Primeiro conheça.
Depois estude.
Depois compreenda.
Depois converse.
E, principalmente, saiba reconhecer quando uma coisa pertence à experiência de determinada casa.
Uma das preocupações centrais da aula é justamente combater a ideia de uma verdade única e absoluta apresentada nas redes sociais.
Minha verdade não é a única verdade
Eu faço questão de dizer isso.
O que eu apresento aqui é uma visão de estudos.
É aquilo que aprendi.
É aquilo que vivi.
É aquilo que pesquisei.
É aquilo que experimentei dentro de diferentes caminhos.
Eu passei por diferentes experiências religiosas e espirituais.
E isso me ensinou uma coisa:
ninguém é dono absoluto do conhecimento.
A minha experiência não precisa ser igual à sua.
Mas ela pode servir para abrir uma porta.
E, depois que você entra por essa porta, precisa estudar por conta própria.
Espiritualidade não é idolatria
Eu também faço uma distinção importante entre simplesmente seguir uma religião e desenvolver uma espiritualidade baseada em estudo, experiência e compreensão.
Você pode estudar diferentes caminhos.
Pode conhecer diferentes tradições.
Pode compreender diferentes formas de espiritualidade.
O problema não está em conhecer.
O problema está em não saber o que está fazendo.
Eu prefiro uma pessoa que diga:
“Eu não sei. Vou estudar.”
Do que uma pessoa que diga:
“Eu sei tudo.”
O verdadeiro sacerdote também precisa estudar
Se você é sacerdote, a responsabilidade é ainda maior.
Você não pode simplesmente repetir o que ouviu.
Você precisa saber:
De onde veio?
Quem ensinou?
Qual é a tradição?
Qual é o fundamento?
Qual é a finalidade?
Qual é a relação com o Odu?
Qual é a relação com o Orixá?
Qual é o contexto?
Porque você está mexendo com a vida de outra pessoa.
E isso exige responsabilidade.
Não coloque medo na cabeça das pessoas
Outra coisa que precisa acabar é o terrorismo espiritual.
“Se você não fizer, vai morrer.”
“Se você não raspar, seu cabelo vai cair.”
“Se você não fizer esse Orixá, vai acontecer uma desgraça.”
Não.
A espiritualidade não precisa ser construída através do medo.
Na própria live, a crítica a ameaças desse tipo aparece de forma direta, inclusive questionando a ideia de que uma pessoa morreria simplesmente por não realizar determinada iniciação.
Eu prefiro que você tenha conhecimento.
Que você escolha conscientemente.
Que você entenda o caminho.
Que você faça porque compreendeu a necessidade, e não porque alguém colocou medo em você.
Antes de entrar em uma casa, observe
Vou dar uma orientação prática.
Antes de colocar sua vida espiritual nas mãos de alguém, observe essa pessoa.
Observe a casa.
Observe como ela trata as pessoas.
Observe a família.
Observe como vive.
Observe se existe coerência entre aquilo que fala e aquilo que pratica.
Não procure um sacerdote perfeito.
Esse não existe.
Mas procure coerência.
Procure responsabilidade.
Procure estudo.
Procure alguém que saiba dizer:
“Eu não sei.”
Porque isso também é conhecimento.
O culto precisa produzir consciência
O objetivo do conhecimento espiritual não deveria ser transformar você em uma pessoa arrogante.
Deveria transformar você em uma pessoa mais consciente.
Se você aprende sobre Ogum e passa a ser mais agressivo, talvez não tenha entendido a lição.
Se aprende sobre Exu e passa a viver de fofoca, talvez não tenha entendido.
Se aprende sobre justiça e passa a julgar todo mundo, talvez não tenha entendido.
Se aprende sobre liderança e passa a humilhar os outros, talvez não tenha entendido.
O conhecimento precisa transformar comportamento.
O que eu quero que você leve deste estudo
Se você chegou até aqui, quero que você guarde algumas coisas.
Primeiro:
Orixá não está brigando pela sua cabeça.
Segundo:
não descubra sua espiritualidade apenas através de aparência, personalidade ou estereótipos.
Terceiro:
não transforme exceções em regras universais.
Quarto:
aprenda a diferença entre tradição, experiência pessoal e opinião.
Quinto:
conheça a origem do culto que você pratica.
Sexto:
não reproduza rituais sem entender sua finalidade.
Sétimo:
não transforme quizilas e interdições em listas universais sem conhecer o contexto.
Oitavo:
não reduza Odu a uma simples conta de internet.
Nono:
não use o Orixá para justificar seus defeitos.
E décimo:
estude.
Estude sempre.
O conhecimento nunca termina
Eu encerro esta aula exatamente como gostaria que você continuasse sua caminhada:
estudando.
Porque quanto mais você conhece, mais percebe que existe coisa para aprender.
Os Orixás possuem histórias.
Os Odus possuem versos.
Os versos possuem ensinamentos.
As tradições possuem histórias.
As famílias possuem fundamentos.
Os rituais possuem razões.
E tudo isso precisa ser estudado dentro do seu contexto.
Não pegue um pedaço e ache que descobriu o todo.
E então, o Orixá briga pela sua cabeça?
Depois de tudo isso, eu volto à pergunta inicial.
O Orixá briga pela sua cabeça?
Não.
O que precisa acontecer é você compreender sua cabeça.
Compreender seu Ori.
Compreender seu caminho.
Compreender suas necessidades.
Compreender o que o oráculo está mostrando.
Compreender aquilo que você está cultuando.
E compreender que espiritualidade não é uma disputa.
É conhecimento.
É responsabilidade.
É experiência.
É estudo.
É ancestralidade.
É transformação.
E, acima de tudo, é consciência.
Não permita que alguém utilize sua falta de conhecimento para colocar medo em você.
Não permita que alguém transforme uma tradição complexa em uma frase pronta.
Não permita que alguém diga que existe apenas uma verdade porque a verdade religiosa é muito mais complexa do que aquilo que cabe em uma postagem de rede social.
Estude.
Pergunte.
Pesquise.
Conheça.
E, quando alguém disser:
“Seu Orixá está brigando pela sua cabeça”,
pare e pergunte:
“Por quê?”
Porque é justamente quando você começa a perguntar que começa a estudar.
E é quando começa a estudar que deixa de simplesmente acreditar no que lhe disseram e começa, verdadeiramente, a compreender aquilo que está diante de você.